segunda-feira, 3 de maio de 2010

2 - Medo de amar

Medo de amarForam muitos os andarilhos que lhe imploraram as tranças ao longo dos anos. Mas quanto mais seus cabelos cresciam, mais seus propósitos saiam dos trilhos. Ela foi se acostumando aos poucos com a umidade daquele lugar, de início adverso, mas que aos poucos se tornou seu universo, seu lar, e aquela vontade de liberdade lhe foi abandonando com o passar da idade. Gradativamente, acostumou-se com sua rotina limitada, e abraçou sua sina como se do lado de fora só existissem perigos no desconhecido. Verdade que os elogios que lhe chegavam por entre as barras enferrujadas que restringiam a liberdade, acariciavam seu ego. Chegou a estender suas longas tranças e a alguns poucos deixou que lhe alcançassem a janela no alto daquela torre comprida. Mas também aprendeu que algum tempo depois das juras de amor, príncipes e plebeus queriam se transformar em Senhor. E optou pela liberdade que aquela prisão lhe proporcionava e assim os descartava em um lance de tesoura. Vão-se os homens lobisomens, crescem novamente os cabelos. Agora, eles cresciam porque ela gostava deles compridos. Já não tinham os propósitos de tempos idos. Jogava as tranças ao bel prazer, sem ter mais a querer, apenas para se entreter. Cortava os cabelos, e os esperava crescer. Estava segura em seu universo métrico e tétrico. Segurava-se nele desesperadamente. Nunca tivera coragem de amar, jamais conheceria o calor de se entregar ao amor em uma noite fria de escuro céu e tornar-se-ia lenda a beleza de Rapunzel.

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