terça-feira, 25 de maio de 2010

6 - Vampiros

Noturnas e soturnas, nuvens escuras pairam no ar rarefeito, raro o efeito: baixas, ameaçadoras criaturas volumosas, ansiosas e opressoras. Não permitem nem vestígio de luar, nem faísca de luz estelar. Nos postes e nas casas distantes não se vê um único alento neste tormento temporal atemporal. Nem, se quer uma, somente uma lâmpada acesa para revelar a presa, nem mesmo uma única amarela pálida, capenga, inválida: o breu é absoluto e resoluto, o habitat é propício para o medo, e de suas tocas observam e se esgueiram pronto para o bote, com sangue no olhar, o pavor e o suplício, e a única rota de fuga que resta e o fio de sanidade que nos testa é o portal do hospício.

Ouvem-se os pensamentos rancorosos, tamanho o silêncio, e se sente no frio gélido que traz dor às extremidades do corpo e mergulha a alma em sessões tiranas torturantes, sádicas e insanas, a presença sufocante do mal puro se aproximando, e mal se respira um ar escasso e ainda poluído, fétido, cortante, desconfortável, doído, penalizado... Algumas pessoas semi-viventes vivem nesta paisagem desolada e trazem esse ambiente angustiante consigo e nos envolvem e revolvem em orgia nosso eu e trazem aquele breu noite e dia, sugando e solvendo toda nossa energia...
Farsas disfarçadas, sorrisos dissimulados, intenções camufladas, são simpáticas e charmosas, empáticas e amorosas, e ainda sim nos perturbam a mente, nossa ancestral vivência revelada e aflorada em instinto de sobrevivência, sugam-nos a vitalidade aos poucos, gradativamente, e revelam-se loucos somente segundos antes do ataque derradeiro...

Mas a vida sempre encontra um meio, sempre preserva um veio, sempre reserva uma saída, na volta ou na ida, e guarda transformações profundas para essas almas moribundas. Ao aproximarem-se, perto demais, de fontes de luz intensa e densa, recebem a sentença e sofrem a conseqüência e são repelidos como diabo da cruz, desde tempos indos, ou então, ao desespero se entregam e se desintegram todos os seus ardiz maléficos, sobrando desta parte delas, apenas restos morféticos, ou se dá ainda, a metamorfose suprema, nada tema: ao enxergarem o brilho imenso, reavaliam o bom senso, e uma faísca acende o estopim, e mesmo que tênue, passa a se notar, derradeiro fim, um ínfimo mas consistente brilho próprio brotar para quem souber olhar no peito de quem para a vida teima em retornar.

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