quarta-feira, 5 de maio de 2010
3 - A dama do rio
Segui o som da água. Quando a cortina de folhagem se abriu depois de horas de caminhada, foi que eu vi. Uma bela mulher desnuda, que entoava uma melodia à luz do dia, porém muda. A água lhe acariciava os pés, gelada. Mas era eu quem me arrepiava.Foram minutos que compuseram uma eternidade. Eu já não caminhava. Flutuava extasiado com a visão. Eu me aproximei perto o suficiente para lhe escutar os pensamentos, mas distante o suficiente para não descompor aquele quadro inundado com uma mistura mágica de sensualidade e inocência.Sua reação foi serena, o brilho de seu olhar cintilava no movimento das águas. Ela não se desviou, mas suspirou ao perceber meu encantamento.Não obstante, uma volúpia incontrolável apoderou-se de mim e do mundo. Desejo incontido, nunca antes sentido e, portanto se revelando único e verdadeiro.Estavam ali as explicações de todas as dúvidas, de todas as divagações, o motivo para suportar todas as dores, e de todos os amores que dilaceraram minha existência. E num instante, minha mão se ergueu, estiquei o dedo e toquei sua tez.E naquele dia, o mundo se fez, a vida ganhou sentido. Toda a dor era passado. Lembrança distante.Aquela melodia entrava em sintonia com as batidas do meu coração.Um coquetel de aromas, levemente doces, arrebatadamente selvagens, tomaram conta daquele universo paralelo.Ela olhou.Sorriu.E me beijou.As águas que antes acariciavam somente a ela, agora me envolviam também, em toques constantes, sinuosos, ternos e de intensidade crescente.E tudo era carícia, eu, ela, água, tudo...E o ribeirão, se fez rio, e o rio, correnteza e toda dúvida se fez certeza...E toda a delícia se fez malícia e ainda sim voluptuosamente bela.Singela.Mas pulsante.E o rio se fez cachoeira.A jorrar e invadir o mar.Já não ouvia a melodia, mas um som de estrondos em sequência, como que um festival de trovões e relâmpagos a castigar todo lugar, porém a nos animar ainda mais. E a nos aninhar em conjunto mais que perfeito.E o mundo se fez perfeito.Estavam justificados todos os dias desde que eu nasci.Era para aquele momento que eu tinha feito.Que eu tinha sido feito.Extasiado de tantas sensações, nossos corpos foram vencidos e deitaram-se à beira das águas, contemplando aquela epifania.Adormeci.Quando acordei era outra luz de outro dia e já não tinha companhia.Mas em paradoxo, não estava triste.Tinha vivido aquilo e aquilo ninguém poderia tirar de minha vida.Hoje, caminho pela calçada preso às convenções da cidade grande e me castiga o sol em ultravioleta cortante, o ar impregnado de carbono sufocante e os olhares cheio de ressentimento da turba que procura uma razão para existir... ...pego o ônibus lotado e me integro ao gado em direção sem direção, porém no rumo certo a mais um dia de trabalho mal remunerado. Nem por isso estou chateado.E me lembro e por isso esboço o sorriso. Vale à pena. É possível. E me foi concedido tocar os lábios daquela ninfa. Acima de todos os não, eu já tinha experimentado do mundo aquele sim. E em meu coração, ainda ouvia aquela melodia. E viver era bom, porque, existia em algum lugar, aquela menina com seu diferentenciado olhar... Em algum lugar mal localizado, desliza pela minha alma a pele molhada da bela dos cabelos longos e prolongados até o ponto de encontro e encanto de suas pernas torneadas...
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