Há dias em que parece que arrancam violentamente todo o fino e frágil véu de ilusão que mal cobre a realidade em que vivemos. E os nossos olhos, como os de um vampiro com a boca ressecada, tamanha a sede de sangue inocente, enxergam como raramente acontece... A vida alcança outra dimensão e mostra sua impiedade e sua natureza inóspita. Todos os olhares tristes, todas as palavras ditas - malditas - e caladas na ânsia de pronunciar verbos belos a alguém, gestos insensatos, as promessas esquecidas, objetivos abandonados, o tempo desperdiçado, tudo isso e muito mais enfeia nossa alma como verrugas grandes e negras invadindo toda a nossa pele por todo o corpo. Nos tornamos nossos próprios algozes e implacáveis juízes de tudo o que fizemos e deixamos de fazer. Corre por nossas veias o ácido de nossa própria impiedade voltando-se contra nós mesmos, trazendo dor intensa que nos dilacera e nos prostra de joelhos sobre pedras pontiagudas. E nos parece justo essa agonia enlouquecedora, quando não demasiadamente generosa.Mas ai vem um não sei o quê de nosso mais profundo eu, de algum lugar onde reside e persiste o âmago de nossa dignidade e essência humana - intocada desde antes de existirmos gente e que depois que nos metamorfesarmos pó ainda persistirá incólume -, lembrando que deixamos pegadas somente pelos caminhos que nossos olhos enxergavam, e se não acertamos a direção, mesmo assim conhecemos lugares, e se odiamos e ignoramos pessoas, também experimentamos amores e paixões, conhecemos novos sabores, e se machucamos e fomos machucados, e tão equivocadamente senhores de nossos destinos, e certamente desorientados, também fizemos feliz e sorrimos, e então,
foda-se,
tudo valeu a pena, cada lágrima escorrida, cada topada em cada pedra, cada escorregão, cada se não, tudo, tudo pela intensidade de se sentir plena a vida e gozar cada sensação que nos faz humanos!
domingo, 16 de maio de 2010
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