terça-feira, 1 de junho de 2010
7 - Toque
Deu-lhe um beijo apertado e tranqüilo que transmitia êxtase e segurança e conseguia ainda dissimular a vontade represada por toda uma vida, a necessidade íntima e sincera de trazer para o real os seus anos exageradamente prolongados de orgias em solidão. Sentia seus lábios carnudos, sua pele clara salpicada aqui e acolá com pintinhas que mesclavam cores nos lugares exatos, como se pinceladas por um pintor renascentista, nem um milímetro mais para lá ou para cá além do lugar exato em que deveriam morar e ornar e instigar e magnetizar e hipnotizar os olhares incautos dos homens. Era tudo planejado e executado para contemplação.Como se todo esse conjunto onde o poeta já definiu que nada falta ou sobra não fosse o suficiente para lhe prender à teia, ainda lhe brilhavam na face exuberantemente feminina duas pedras preciosas que ao capricho de cada matiz que escapava ao prisma da luz, apresentava-se do azul celeste, metamorfoseando ora em cinza azulado, ora em verde esmeralda e sempre com um detalhe a mais a zombar do imperfeito, como era o caso de uma auréola dourada envolvendo cada uma das meninas de seus olhos. Era isso! Estava diante dele e ao seu alcance a menina de seus olhos, de sua mente e de sua alma. O corpo dela era dotado de uma geografia delicadamente feminina com curvas, vales, montes e armadilhas naturais de mulher, mas sem que tivesse que provocar movimentos bruscos no aventureiro que estava realizando sua exploração épica. Eram linhas de pureza e suavidade. Um tom mais pronunciado, picante, era enunciado somente pelos seus luxuriosos lábios, que mais uma vez saboreava e onde se entregava incondicional, e pelas levemente salientes macias maçãs a compor-lhe a face saborosamente feminina. No mais, traçados delicados que compunham formas harmonicamente proporcionais exaltando seu gênero feminino. Alisou-lhe os cabelos da raiz até as pontas em meio a suas costas e esse movimento foi acompanhado pelo vestido dela, que lhe escorregou pela outra metade do corpo até acondicionar-se ao tapete e conformar-se com a condição da inutilidade que iria experimentar pelos momentos seguintes.Sua mão esquerda, ele não sabia como, pois era conduzida por um poder advindo de seu inconsciente, de um id mal domado por um ego por muito tempo castigado, deslizava com facilidade ao longo daquela pele lisa e macia e estimulava o desejo de ambos. No sinuoso passeio seguinte desatou-lhe o feche eclair, e ansiosamente continuou a dar fluência à sua jornada inebriante. Seu corpo começou um balé discreto, que conduziu a peça agora solta, corpo abaixo, ao capricho da gravidade.Mais uma viagem e seus dedos, mais abaixo, encontraram-se com a renda, último detalhe de tecido que ainda envolvia a pele dela. Fez uma leve pressão e a peça deslizou um pouco e parou temperamentalmente alguns centímetros depois. Mas os dedos mostraram domínio e uma sequência de comandos seguros, porém ternos, e lhe ensinaram o caminho até o tapete felpudo e quente que revestia o chão. Deu a ela alguns centímetros de distância, que só foi alguns segundos depois vencida pelos lábios de ambos numa prazerosa troca de sensações que evoluía e mesclava-se com o gosto da liberdade que experimentava, enquanto, simultaneamente, ofegantemente, livrava-se de sua própria roupa.
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