O velho místico retorna após uma crise de catalepsia, volta para a aldeia e reúne a multidão na praça central em frente a Matriz. Aos corações cheios de medo e admiração pela sua ressurreição, afirma ter retornado da morte, que lá onde esteve aprendeu muito, traz novidades e prega a todos.
Não trago boas notícias. Não somos todos iguais. A ordem natural é hierárquica. Quem nasce para coadjuvante, jamais chega a protagonista.
E não é só isso. Não existe uma escolha baseada em critérios para decidir quem vai passar as férias na Europa e quem vai perder tudo o que tem nas enchentes.
Não, é tudo aleatório. Não há uma seleção baseada em mérito. Nem agora e nem depois. A vida é uma competição em que vence o mais forte ou o mais esperto. E todos tem que contar com a sorte totalmente aleatória. E mais cedo ou mais tarde, todos chegam a derrota final. Todos. Portanto, se você optar por ser bom e fazer o bem, faça-o porque te faz feliz. Não espere alguma lei de retorno ou por uma recompensa baseada em merecimento. Se optar em ser mau, os limites que lhe serão impostos são os de sua própria natureza e o da eficácia ou ineficácia das leis e regras humanas. A justiça é humana e falha com a do árbitro de futebol.
Quem nasce melhor, tende a viver melhor. As exceções são raras e confirmam a regra. A vida é competição em forma de pirâmide ou de funil. Muitos lutam, poucos vencem. E no fim, todos perdem.
A verdade do que venho dizer é gritada aos seus ouvidos todo o tempo. Mas é comum que quem tem ouvidos prefira não ouvir. Merecem a miséria os miseráveis? Crianças desnutridas fizeram por merecer tamanho sofrimento? Doentes procuraram suas doenças? E do outro lado, os bem aventurados são abençoados pela sua bondade? São ricos e saudáveis aqueles que se comportaram bem?
E que história é essa de que o sofrimento traz o aprendizado? Sofrimento, meus caros, traz apenas dor. Se houvessem seres superiores, eles seriam um tanto quanto sádicos, não acham?
(continua)
segunda-feira, 5 de julho de 2010
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